Vinho nem branco nem tinto: laranja

15 de setembro de 2014

“Branco, tinto, rosé ou laranja?” Não se espante com o laranja da pergunta. A cartela de cores dos vinhos agora tem mais esse tom, que é o novo queridinho de sommeliers mundo afora por ampliar as possibilidades de harmonização com comida.

A tendência remonta aos primórdios da vitivinicultura: a técnica de produção do vinho laranja nasceu há milhares de anos em algum ponto da atual república da Geórgia. Por definição, vinho laranja é um branco produzido de forma semelhante a um tinto – ou seja, o suco da uva fica em contato com as cascas por bastante tempo. É esse contato, maior ou menor, que dá cor aos vinhos – a cor é extraída da casca. No caso do laranja, ela tem gradações que vão do dourado ao cobre.

Além da cor, que vem da casca, grande parte desses vinhos tem influência de ânforas de barro, onde alguns deles são guardados. Essa era a forma tradicional de conservar vinhos na antiguidade. Na Geórgia, os vasos ou ânforas, chamados qvevri, são fechados e lacrados com cera de abelha e enterrados.

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Detalhes. A variedade Ribolla pede maturação perfeita para resultar em vinhos laranja equilibrados. FOTO: Leandro Mattiuz

Quem chamou a atenção para essa técnica e pautou sua retomada foi o produtor italiano Josko Gravner (leia ao lado), em meados dos anos 2000. De lá para cá, países do Cáucaso – onde está a Geórgia – voltaram a produzir vinhos laranja. Mas os exemplares mais conhecidos vêm da Itália (em especial do Friuli) e da Eslovênia.

A maior parte do vinho laranja é produzida segundo regras dos vinhos naturais. Ou seja: dispensam produtos químicos nos vinhedos e leveduras industriais na fermentação. Além disso, muitos não são filtrados e chegam a ser um pouco turvos, o que pode dar a falsa impressão de que são defeituosos.

No copo, eles têm aromas muito diferentes dos brancos normais. Frequentemente, lembram frutos secos (laranja seca, nozes, amêndoas, damasco e ameixa seca etc.) e têm notas oxidativas ou terrosas, de especiarias, como açafrão, mel e cera. Finalmente, pelo longo período de contato das cascas com o suco, são vinhos que têm taninos em diferentes intensidades e remetem a tintos mais delicados.

Só o tempo dirá se vinhos laranja são uma moda passageira. Pela forma de produção e escala, acabam sendo caros – o mais barato do painel provado pelo Paladar, o chileno Muscat Viejas Tinajas 2012 De Martino, custa R$ 101. Ou seja, eles não vão roubar mercado de Malbec argentinos ou Cabernet Sauvignon chilenos.
Os vinhos laranja oferecem uma gama de harmonizações bem mais ampla que a dos brancos normais (e de muitos tintos).

Além de peixes e frutos do mar, encaram bem, por exemplo, comidas muito temperadas, como a indiana, a tailandesa ou certos pratos da culinária brasileira. E até mesmo carne, não só de porco ou frango, mas também de cordeiro, em pratos que normalmente pediriam um tinto. Vinhos laranja são “um gosto adquirido”, admite Guilherme Corrêa, um dos mais premiados e experientes sommeliers do Brasil, da importadora Decanter. É dela o mais completo portfólio de vinhos laranja no mercado, incluindo os de Gravner.

na companhia de Corrêa e de Leandro Mattiuz, sommelier da Decanter em São Paulo, que provamos seis rótulos “laranjas” para o Paladar. A degustação foi na loja e bar à vin da importadora.

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RIBOLLA ANFORA IGT 2005 GRAVNER
Origem: Friuli, Itália
Preço: R$ 433,20 (na Decanter)
O nariz mais intrigante do painel: açafrão, cúrcuma, laranja, damasco e terra. Difícil imaginar outro vinho com essas características. Com tonalidade próxima do acobreado, a boca segue com atrativa personalidade e taninos finos e potentes. Há frescor e profundidade dignos dos grandes vinhos. Indica bom potencial de guarda. É um vinho caro, mas se considerarmos que é a máxima referência de um estilo, vale o investimento.

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VITOVSKA CARSO 2010 ZIDARICH
Origem: Friuli, Itália
Preço: R$ 249,50 (na Decanter)
A casta Vitovska é nativa das regiões que dividem Itália e Eslovênia. Diferentemente de Gravner, que fermenta os vinhos em ânforas, aqui os recipientes utilizados são grandes tonéis de carvalho (não novos). Com apenas 12% de álcool, traz notas frutadas de laranja seca e damasco com algo de pão tostado e talco. Os taninos são vigorosos e finos, bem equilibrados por ótima acidez.

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MUSCAT VIEJAS TINAJAS 2012 DE MARTINO
Origem: Valle del Itata, Chile
Preço: R$ 101 (na Decanter)
O enólogo Marcelo Retamal recuperou a tradicional (e local) forma de vinificar em ânforas de barro para criar uma nova dimensão em um vinho moscatel. A personalidade floral da casta é mantida (flor de laranjeira e lavanda), complementada por notas terrosas e de leveduras. Os taninos são delicados e discretos, acompanhados de leve untuosidade e bom frescor. Um bom passo de entrada nos vinhos laranja.

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TEODOR BELO SELEKCIJA 2008 MARJAN SIMCIC
Origem: Brda, Eslovênia
Preço: R$ 249,50 (na Decanter)
Aqui há uma mescla das variedades Ribolla (60%), Pinot Grigio (20%) e Sauvignonasse (20%). Elas são fermentadas separadamente e cada variedade permanece um período diferente em contato com as cascas. O vinho tem um ataque potente, com notas de damasco, caramelo e cera. Os taninos são finos, com média presença, e o ótimo frescor ajuda na percepção de limpidez e leveza na boca.

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RENOSU BIANCO ROMANGIA IGT DETTORI
Origem: Sardenha, Itália
Preço: R$ 102,80 (na Decanter)
A biodinâmica Tenute Dettori aposta somente nas variedades locais. Neste caso, o corte de Vermentino e Moscato de Sennori não é safrado por ser uma mescla de vinhos de 2008, 2009 e 2010. O nariz é sedutor, com notas de casca de laranja, ervas e algo salgado (maresia). Na boca, é delicado, com taninos discretos. É um detalhe, mas seria bom se a doçura descesse um degrau.

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RESERVA PESSOAL BRANCO 2005 ALVES DE SOUSA
Origem: Douro, Portugal
Preço: R$ 219,20 (na Decanter)
A cultuada Quinta da Gaivosa também se aventurou pelos laranjas. Neste caso, as castas do Douro, dominadas pela Gouveio, são fermentadas em barricas novas de carvalho, onde o vinho permanece por mais seis meses. As notas abaunilhadas marcam este branco, com notas exóticas de pitanga e café. A boca é marcada pela untuosidade e boa potência.

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De barro. O produtor Josko Gravner entre as ânforas onde fermenta e guarda seus vinhos laranja em Friuli, na Itália. FOTO: Divulgação

Achavam que ele estava louco

Josko Gravner vinificava normalmente: seus vinhos eram aromáticos, límpidos e premiados. Em 1987, ele foi à Califórnia, provou mais de mil vinhos e ficou frustrado com a homogeneidade dos rótulos. Voltou ao Friuli, na Itália, e concluiu que a resposta a seu inconformismo não estava no Novo Mundo, onde produzem o fermentado há poucas décadas, mas no Velho, no berço da bebida, a Geórgia. Gravner esperou o fim dos conflitos separatistas da União Soviética e, em maio de 2000, finalmente, conseguiu fazer sua primeira visita aos vinhedos georgianos. Ao provar o primeiro vinho em ânfora, teve a certeza de que esse seria seu caminho. Mercado e críticos achavam que ele tinha enlouquecido.

Nas palavras de Gravner, a ânfora funciona como um amplificador, para o bem e para o mal – ressalta qualidades, é verdade, mas também sublinha defeitos. Ou seja, uvas com algum desequilíbrio terão seus defeitos acentuados.
Defensor e praticante da biodinâmica, Gravner segue filosofia desenvolvida por Rudolph Steiner para cultivar as variedades locais Ribolla Gialla, Friuliano (antigo Tokay), Pinot Grigio e Riesling Itálico, que dão vinhos equilibrados, mesmo com macerações tão longas (até 7 meses de contato com as cascas).

Sobre a excentricidade do vinho laranja, Gravner diz: “Julgar um vinho pela cor é como julgar uma pessoa pela sua cor. O importante é o que está dentro”.

http://blogs.estadao.com.br/paladar/nem-branco-nem-tinto-laranja/

 
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